segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um dia na vida de Knight



Acordo com o barulho estridente da porra do celular e a TV ligada no bom dia Brasil. Arremesso-o na parede. Quebrei mais um. Dois minutos e meio depois o telefone fixo toca. É a Jill, brava, perguntando quem são as vadiazinhas que ficam me deixando recado no Orkut e por que eu não atendo o celular. São nove da manhã. Mal sabe ela que eu dormi apenas três horas. Não consigo dormir antes das seis da matina desde que eu tinha 12 anos. Mas já me acostumei: madrugada é a hora em que eu estou inspirado, tentando reescrever todo o meu projeto de mestrado desde que meu computador deu pau. Leio tudo, releio e decido que está um lixo. Foda-se, vou jogar vídeo-game mesmo. Mas a rede do PS3 também deu pau. As máquinas, sempre fodendo a minha vida com a eficácia que só a falta de sentimento humano pode proporcionar. Não vou poder dar uma surra em ninguém do outro lado do mundo no winning eleven hoje. Jogo sozinho mesmo. É isso aí. Eu moro sozinho porque sou xarope, chato pra caralho e ninguém me ama. Mas beleza, essa é a vida de solteiro com a qual eu sempre sonhei. Inspirado em grandes homens como Nietzsche, James Bond e Patolino, eu sempre quis ser solteiro. Enquanto meus amigos sonhavam em morar numa casinha de cerca branca no subúrbio, com sua esposa branca de cabelos lisos e recatada, seus 2.6 filhos como mandam as estatísticas do governo para o qual eles pagam seus impostos religiosamente em dia, e também um cachorro labrador chamado Puppy (ou qualquer porra do tipo), eu me imaginava numa jacuzzi em uma cobertura com vista panorâmica para a cidade e acompanhado de duas ninfetas suecas que me implorariam para cometer um pecado original amaciadas pela tequila. Mas não há tempo para divagações, A Jill parece estar bem brava...
Durmo com o telefone na orelha enquanto ela fala. Minha resposta padrão para tudo que ela diz é: “Beleza, linda. Eu entendo.” Isso meio que amolece seu coração e ela parece ficar mais calminha. Desligo, mas não consigo mais dormir.
Não tenho nada para fazer essa manhã. É um dos luxos da minha profissão. Trabalho quando eu quero, foda-se. Decido que vou lavar o carro. Está frio pra caralho, mas a pneumonia toxêmica será um pequeno preço a se pagar pela minha poderosa demonstração de virilidade sem limites enquanto eu enxáguo o capô sem camisa sob o olhar atento das minhas vizinhas crentes.
A tarde, tenho hora marcada com a minha orientadora do mestrado. Juíza, loira, gostosa e balzaquiana, mas casada. Visto meu terno, sem gravata porque é coisa de playboy babaca. Passo gel no cabelo. Percebo que meu barbeador elétrico comprado no 1.99 quebrou depois de cinco dias. Lembro dos 5 dias maravilhosos e de barba bem feita. Sinto saudades. Estou parecendo o Dr. House com essa barba, mas foda-se, vou assim mesmo.
No transito, que insiste em ser cerceador de minhas habilidades automobilísticas, acabo sempre pegando a faixa dos motoristas roda-presa, aqueles que andam em carros SUV gigantes para compensar seus respectivos pênis pequenos. Malditos. Começo a desconfiar que há algum congresso de motoristas mongolóides acontecendo na cidade. Ultrapasso pelo acostamento e pela faixa de ônibus. Foda-se.
Chego à ante-sala do escritório de minha orientadora. Em um canto um cara xaveca duas meninas que estão jogando paciência no computador. No outro, dois cretinos encostados na parede dão risadinhas e tomam café. Na mesa ao lado uma senhora com cara de frígida encomenda bolos e salgadinhos para a festa do filho. Enquanto isso eu estou no balcão esperando que algum deles tenha a boa vontade de me atender. Pilantras.
Dou uma esmurrada no balcão, todos me olham. Falo que eu tenho hora marcada com a doutora. Ela não está. Teve que levar no médico seu filho pentelho, babaca e que usa pijama dos transformers. Mandou seus assistentes me avisarem que só vai me encontrar na faculdade à noite. É o tipo de coisa que fode meu dia. Fico puto. Mando todo mundo à casa do caralho. Funcionários públicos têm o dom de me encher o saco, mas discutir com eles agora é crime. Tenho que evadir o local antes da chegada da PM.
Vou direto para a faculdade. Lá sempre há amigos, botecos em volta e mulheres nuas. Bom, na verdade não há mulheres nuas, mas eu gosto de imaginar que vai haver enquanto estou indo pra lá. Esperança é a virtude dos fortes. Encontro a negada lá fumando na escadinha de um dos corredores e falando da última balada. Alienados. Uso meu poder de persuasão para convencer todo mundo a ir jogar bola na quadra ao lado, tiro o paletó e a camisa não me importando com o frio cortante do trópico de capricórnio e mesmo de calça e sapato social sou obrigado a mostrar minhas habilidades goleadoras e muito fodas.
Cai o anoitecer, não me emociono com o por-do-sol. É meio gay. Decidimos ir para o bar ali perto. Hoje o São Paulo joga. Bar do Garcia, reduto tricolor. Noto minha carteira vazia. Faço o que todo homem honrado faz: ligo para a minha mãe e mando-a depositar dinheiro na conta. Uma rápida passada no caixa eletrônico e eu já me sentia uma espécie de Bill Gates, só que não nerd e mais bonito. O bar é temático: dia de jogo é dia de pagodão. Tem-se que chegar cedo para pegar uma das mesas perto da TV no alto da parede. Não vou explicar muito. Se você nunca assistiu futebol em um bar assim então você é um somongó sem vida social.
Samba rolando, caipirinha de cachaça com limão e sem nada de açúcar, senão vira bebida de pederasta. Umas cervejas pra rebater. Começo de Jogo, São Paulo 1 X 0. Me empolgo. Tomo o pandeiro de um imbecil desconcentrado no compasso e começo a comandar a roda. Mulherada sambando em volta e admirando meu talento eclético de puxar músicas que eu nunca ouvi na vida. Já bebaço, nem vi quando o Avaí empatou, virou e fez 3 a 1.


Xinguei o velho do Rogério Ceni, o banzo do Jean, a arrombada da mãe do juiz e o escroto do Paulo César Carpegiani. Mas de nada adiantava. São Paulo fora da copa do Brasil. Agora é esperar o brasileiro. Mas quem se importa. Já estávamos curtidos no álcool. Resolvemos ir jogar bilhar até a hora de ir para uma boate aqui perto. Descontei a raiva em tacadas precisas e habilidosas humilhando meus amigos e obrigando o Garcia a colocar um pôster com a minha foto na parede de seu bar onde se lê : 

“Esse cara é foda”.

A esta altura, você caro leitor deve estar pensando que eu sou um desses playboys baladeiros que não faz nada de relevante na vida. Mas não sou assim. Todos que me conhecem, sabem que a firmeza de caráter e o apego às convicções sempre foram a tônica de minha trilha de vitórias pela vida. Comportamento este que sempre me rende aplausos por parte de mães, pais e coordenadora pedagógica. Apenas gosto de aproveitar o tempo em toda a sua plenitude e carpe diem conforme vai se aproximando o dia em que todos jogaremos bocha e gostaremos de jazz.
Assim como eu, se você cresceu na década de 90, deve se lembrar de como éramos bombardeados por consumismo, desenhos anacrônicos e japoneses vendendo cartilagem de tubarão nas manhãs da TV manchete. Aquele cretino do Sérgio Malandro colocava as crianças em frente às portas coloridas de numeração 1, 2 e 3 respectivamente e os fazia escolher ali entre aqueles brinquedos legais, outros brinquedos mais legais, e um homem vestido de gorila os perseguindo sem nenhum motivo aparente. Isso meio que nos dava uma visão maniqueísta da vida que levamos para a idade adulta: diversão X gorilas, Bem X mal, Estado X liberalismo econômico, São Paulo X Corinthians.





 


















  
O ponto onde eu quero chegar é: acho que esperamos mais da vida adulta do que ela realmente vai nos proporcionar. Queremos crescer para primeiro entrar e aproveitar os lugares onde crianças não podem ir. Depois, dos 15 aos 19, a diversão é beijar o máximo de meninas em uma balada para contar vantagem depois. E hoje, aos 25, tenho saudades dos tempos em que minhas primas ainda não me achavam tarado e minhas babaquices eram justificadas pela faixa etária.
Assim é noite após noite. Muda-se somente a folha do calendário. De resto tudo continua igual.  Durmo bêbado com a Tv ligada no National Geographic para tentar sonhar com aquelas aventuras alucinantes de participar da guerra das Malvinas ou dirigir caminhão em pistas de gelo no norte do Canadá. Acordo logo depois com o barulho de celular. Atiro-o na parede.
Quebrei mais um.





















Escrito por Knight 



Um comentário:

Ayesk@ (Selene) disse...

Aaaaaaaaaaaaaaa esse Google Bloggerkkk deixa meus neurônios doidos...kkk
Knight tive que resstruturar tudo de novo, porque a foto do Iphone foi modificada pela torcedora São-Paulina...rsrs
Por isso tive que mexer de novo...
Mas acho que foi Show , porque esse Texto é D+, um dos meus preferidos!
Bem escrito por voce contando seu dia quase que normal kkk
Beijos doces!!!! E come e bebe por mim na Festa!!

Ayesk@