quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Sequestro do Treinador - Final

 

Selene pensou em usar de seu usuário no site de contos eróticos para tentar convencer o mestre dos contos a encontrar-se com ela, e assim averiguar se ele realmente tinha culpa no desaparecimento do Treinador, mas se assim o fizesse, teria sua verdadeira identidade revelada, e não desejava isso. Era uma usuária muito conhecida no site, e era amiga do Mestre dos Contos inclusive.
Odayr Oliveira pensou a mesma coisa, mas assim como Selene, resolveu chegar até o suspeito pelas vias comuns. No dia seguinte, a quebra do sigilo foi autorizada, e a dupla tinha em mãos o endereço do mestre dos contos. Dirigiram-se até o local o mais rápido possível. Não conversaram muito durante o trajeto. Na realidade, ambos partilhavam da mesma sensação. O usuário de Odayr se relacionava com a usuária de Selene no site de contos, mas nenhum dos dois imaginava que se relacionavam também na vida real. E os dois estavam ansiosos para conhecer a verdadeira identidade do mestre dos contos, sem terem suas próprias identidades do site reveladas.
Era uma bela casa, num bairro nobre, e muito bem protegida. Selene estava ansiosa. Sempre teve curiosidade de saber como era realmente o Mestre dos Contos. O imaginava alto, de cabelos negros e lisos, másculo, sem exageros, um fino bigode e cavanhaque, lhe dando um ar de Don Juan...
Odayr também estava curioso para conhecer um dos integrantes do site, sem ser ele mesmo reconhecido.
Um empregado atendeu ao chamado no interfone, e foi informado por Selene e Odayr que era a polícia quem chamava.
_Queremos falar com Renato Villaboa. São apenas algumas perguntas.
_Ahh, certo, vou informá-lo, disse o empregado.
Não foram convidados a entrar, e ficaram aguardando no portão. De longe avistaram três figuras se aproximando. Duas figuras enormes, e uma pequenina e rechonchuda entre elas.
O homem do meio vestia roupão, e estava suado, extremamente suado. Seus minguados cabelos castanhos escorriam, e seu enorme nariz também estava brilhando de suor. Tinha uns cinqüenta anos. Feições rudes, lábios mal desenhados.
_Estão atrapalhando minha sauna! O que desejam?
Odayr e Selene estavam mudos, estarrecidos pela visão paradoxal do que imaginavam encontrar.
Selene conseguiu falar primeiro.
_Bom dia senhor Renato, somos da polícia, e sabemos que o senhor é escritor num site de...contos.
Ela procurou manter a discrição, já que os seguranças ouviam a conversa. E continuou:
_Ocorre que um dos usuários do site está desaparecido, e em seu último registro ele disse ter sido seqüestrado. Ele deixou uma espécie de recado, acusando o senhor.
A voz do velho saía cansada, empastada:
_Minha filha, eu lá tenho cara de sequestrador? Olhe pra mim! Sou apenas um pobre escritor. Aquele maluco do Treinador já vinha me importunando há tempos! Só me faltava essa agora! Vocês deviam procurar o Crítico. Foi ele que fez a bomba estourar. Estava tudo mais ou menos bem, até que esse crítico começou a fazer comentários nos contos do treinador. Ele fazia em outros também, mas ele gostava mesmo era de criticar o Treinador. Eles tiveram uma briga feia, e o doido do Treinador começou a achar que o Crítico era ao mesmo tempo eu, e outros amigos meus, até que a situação ficou perturbadora, e eu saí do site.
Selene e Odayr sabiam de tudo isso. Mas ao ouvirem as palavras da boca do próprio Mestre dos Contos, a forma com que ele as disse, não restavam dúvidas. Sim, pois eles mesmos chegaram a cogitar a hipótese de que O mestre e o Crítico fossem a mesma pessoa, tamanha a veemência com que o Treinador os acusava. Mas ali, naquele momento, ao verem a figura frágil e antipática do maior escritor de contos eróticos da atualidade, dizendo que o tal crítico era o causador de todo o problema, ambos tinham certeza de que o mestre dos Contos era inocente.
_De volta a estaca zero! Resmungou Odayr.
_Agora temos que chegar ao tal crítico.
_E até quando vamos ficar nisso? Todos são suspeitos! O Treinador não se dava com ninguém do maldito site!
_Calma! Disse Selene. Eu tenho uma idéia. Vou pô-la em prática nessa noite.
_Odayr nada disse. Resolveu aguardar o resultado da idéia de Selene. Estava cansado e precisava relaxar.
No dia seguinte, no departamento, Selene chegou radiante, e disse a Odayr:
_Consegui um meio de chegar ao Crítico sem quebra de sigilo. Assim não vamos parecer idiotas, toda hora pedindo o endereço de alguém.
_Bom! Como?
_Bem, o Crítico tem uma “Amiga” no site, a garota-borboleta, e eu me infiltrei no site, pedindo a ela que o seduzisse, para que pudéssemos averiguar se ele é o seqüestrador. Ela foi muito prestativa, e não se opôs a ajudar na investigação. Vocês homens, são fáceis de engambelar, e ela conseguiu marcar um encontro com ele.
_Tá, mas e aí?
_Oras, sou eu que vou estar no lugar da garota-borboleta, e você fica de longe. Vou conversar com o Crítico, e tentar arrancar alguma confissão dele.
Na hora combinada, lá estava Selene, sentada numa mesa de canto no bar combinado. Vestia uma camiseta com uma exuberante estampa de borboleta, que era o sinal para que o Crítico a reconhecesse. No lado oposto, Odayr também estava sentado, tomando um vinho, e de olho em Selene, atento para cada passo dado pelo Crítico.
A garota-borboleta também estava lá, observando quem chegaria para sentar-se à mesa da falsa garota-borboleta. Era uma sensação gostosa, a de matar a curiosidade de ver um dos usuários do site sem ter sua própria identidade revelada.

Selene aguardava ansiosamente pela chegada do crítico, enquanto tomava seu Martini.
Um sujeito todo vestido de preto adentrou no local, e sondou o ambiente. Localizou a pessoa que procurava: Uma moça, vestindo uma camiseta com uma enorme borboleta estampada.
Aproximou-se, olhou para Selene e disse:
_Olá, sou o Crítico!
_Olá Crítico, sente-se.
Ele sentou e a olhou friamente.
Selene tremeu. Estava cara a cara com um provável seqüestrador.
O que lhe dava segurança era saber que Odayr estava ali, pronto para agir se fosse necessário.
_E então? O que me diz? Perguntou o Crítico.
_Nada de novo. Trabalhando, estudando... E você?
_Apenas trabalhando. Eu achei que você fosse loira, e não ruiva.
_Bem, na verdade meus cabelos são tingidos. Sou loira.
_Hum, sei. E o que te fez querer me encontrar?
_Ah, curiosidade. Você parece ser legal.
_Eu pareço ser legal? Tudo o que faço é criticar os contos de outras pessoas, criar inimigos, e pareço ser legal?
_Bem, eu acho que você deve ser uma pessoa interessante, vivida...
_E eu acho que você não é a garota-borboleta.
Selene arregalou os olhos. Não esperava por isso. Como ele havia percebido?
De súbito, o Crítico levantou-se, e saiu em disparada.
Essa reação para Selene, indicava que ele devia algo. Começou a correr atrás dele.
Odayr também saiu em disparada.
O Crítico corria desesperadamente, tentando desaparecer nas ruas movimentadas do centro, mas Selene e Odayr o perseguiam de perto.
Mas para infelicidade da dupla de policiais ele conseguiu se safar.
Odayr e Selene pararam em um cruzamento, ofegantes.
_Ele fugiu quando percebeu que eu não era quem ele esperava que fosse. Isso pra mim indica culpa!
_Concordo! Disse Odayr.
_Temos que conseguir o endereço dele!
No dia seguinte, a casa do Crítico foi invadia por Selene e Odayr. Ele não estava lá. Foram direto ao computador dele. Nada podia relacionar o desaparecimento do treinador com ele. Odayr e Selene ficaram desolados. Ambos estavam exaustos.
Havia ainda muitos usuários a serem investigados. Malice seria a próxima. Antes de abandonar o local, Selene ainda deu uma última conferida na pasta documentos do computador do Crítico. Não disse nada a Odayr, mas percebeu que muitos dos textos que lá se encontravam haviam sido postados por outro usuário que o Crítico mantinha no site.
Mas foi ao retornar para casa, quando destrancou a porta para entrar, que Selene percebeu o quanto ela e Odayr haviam sido ingênuos. A porta do apartamento do Treinador estava trancada. Que seqüestrador tem o cuidado de trancar a porta da casa da vítima? Então ela concluiu que o seqüestro era uma farsa, e sentiu-se aliviada por dar essa conclusão ao seu superior, pois mais cedo ou mais tarde, ela mesma seria alvo de investigações. Odayr partilhava da mesma sensação, mas nada disse a Selene. O caso foi arquivado, e no mesmo dia, Selene e Odayr foram á um motel, para repetir a dose do que haviam feito na casa do Treinador. Dessa vez com mais tempo.
 



Num local distante, muito distante dali, Carlos Cazzini estava sentado em frente a um computador, comendo pernil assado e bebendo cerveja, esperando pelas reações causadas pelo seu seqüestro. Mas nenhum comentário havia sido feito, nenhuma ação havia sido tomada no site. Mesmo após sua ligação falsa, em que ele disse á polícia que conhecia a vítima, e que ela havia desaparecido, nenhum comentário havia aparecido em seu conto.
Sentia-se só. Estranhamente só, mas tinha a esperança de que o mestre dos Contos seria procurado e detido, pelo desaparecimento do treinador. E assim ele ficou, durante anos.

 
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Como Crítico, devo dizer que esse conto é cheio de erros, principalmente na forma com que a polícia atuou no caso. Não houve pesquisa sobre os procedimentos investigatórios que seriam tomados numa situação como a descrita no conto. Também pequei no final previsível, que o digam Alicinhabh e Sexybutterfly. Além disso, eu repeti o casal protagonista. Eu já havia usado essa dupla antes, em outro conto. Mas tudo bem, pois o intuito era deixar pistas sobre qual é o meu avatar original. Resolvi fazer isso para que o “Treinador” saiba quem é a pessoa que ele odeia, pois ele está odiando as pessoas erradas.

Acredito que algumas pessoas perceberam ou irão perceber. Sintam-se livres para denunciar-me em seus comentários. Só não me digam que sou o senhor dos contos. Não escrevo tão bem.


Escrito por : O_Crítico (Nilton)

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