segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ela, o pêssego




  
Não se trata de um pêssego qualquer, mas daquele que faz salivar ao primeiro olhar. Aquele pêssego que, contra a luz do sol propicia a antecipação do prazer pela simples visão, alternando cores, denotando maturidade; e estar maduro, nessa circunstância equivale a instaurar água na boca pelo aspecto promissor, pela polpa carnuda e macia sob a pele aveludada, que instiga o contato com os dedos que apalpam, a palma que agasalha e eventualmente serve de base para o esmagar incontido que retira o sumo que escorre por entre os dedos e percorre as costas da mão e o pulso. Sumo que provoca o instinto de lamber... E lamber o pulso, as costas das mãos, entre os dedos, de olhos fechados é um ato sensual.
            Não se trata de uma mulher qualquer, mas daquela mulher que faz os olhos se estreitarem e a língua percorrer os lábios inconscientemente. Percorrendo seu corpo estirado ao sol livremente, dengoso e cremoso, a luz do sol destacando os pelos dourados sobre a polpa carnuda e bronzeada, o instinto masculino é um só: adquiri-la, corpo e alma! Possuir aquela escultura, com o pensamento, com os olhos, com as mãos, com os lábios, com todos os sentidos!
            O cheiro que se espalha é infiltrado através das narinas e invade a corrente sanguínea, passando a viajar por todo o corpo, delineando uma gama de prazeres que se alcançam, se interligam, se misturam e se tornam novos prazeres de maneira instantânea! Funciona como elementos em cadeia, como a brincadeira do dominó: ao tocar o primeiro, todos se tocam e entrelaçam, e a reação é seqüencial, inevitável até o desfecho esperado, mas recebido sempre com alguma novidade, ineditismo.
            Premeditar a primeira mordida é o botão que acende a fornalha. Tomar posse e decidir quando e como cravar os dentes na pele macia, antecipando a reação do pêssego ao ser tomado, invadido, sem a pressa de devorar e deglutir, mas buscando saber o nível de sua necessidade de ser comido. Quando ser mastigado causa tanto ou mais prazer do que mastigar, comer.
            Sentir o suco entre os dentes fincados, espalhando-se pela língua como mel, que vagarosamente domina a pedra de mármore, lhe incutindo sabor e lhe transformando em algo mais do que apenas algo duro, belo e frio. O sabor que define a quem saboreia, o odor impregnando coração e mente!
            A primeira dentada, separando o pêssego de si mesmo e aglutinando-o ao ser que o mastiga, criando um novo ser, melhor, com mais sabor e mais prazer! A velocidade da deglutição em slow motion, cada músculo participando da ação; os lábios molhados, o queixo requisitando a língua para recolher o suco que foge sem querer escapar... Sugar o caroço, duro, resistente até limpá-lo por completo; seria ele o coração do pêssego? E, na função primordial de coração necessita ser forte para receber, processar e devolver os estímulos à flor da pele?
            E enquanto coração,  renova-se ao ser replantado, renascendo com características além das que possuía, recebendo grande parte dos prazeres de seu possuidor, com isso evoluindo e se tornando mais belo, mais gostoso e mais desejado. E mais desejoso.
            Um pêssego que mate a minha fome, porque como com os olhos, com as mãos, com a boca... Com todo o meu corpo! Um pêssego que se submeta aos meus instintos vorazes e me sacie por completo, que deseje ser comido tanto quanto eu o deseje comer!
            Um pêssego-fêmea, madura, carnuda, gostosa, para ser regada e colhida, a seu tempo, e cuidada para que me alimente, corpo e alma, e para que se alimente de mim.
            Minha fêmea, meu pêssego...
 


Por Caique

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